24.11.07

hoje ia no autocarro...


solitude, originally uploaded by Alieh S.

...e enquanto lia a minha revista preferida (Time), que é americana, vi um texto sobre o Irão. Fala-se de forma fria sobre que sanções aplicar ao Irão, nas formas de estrangular a economia persa, etc. E de repente vejo uma foto de uma central de produção de Urânio que fica em Esfahan e lembrei-me da minha amiga Alieh, que lá mora, e da sua amiga, que também conheço, Mahdeyeh.
Fala-se descontraidamente da eventualidade de mais uma guerra, para dissuadir a Pérsia de ter um programa nuclear. Era só mudar o exército e os mercenários (ups, equipas de defesa contratadas) para o país vizinho. Mas é mais que isso, a cidade das duas amigas seria um alvo prioritário...
E aí, já na rua, fui olhando para os prédios, para o alcatrão, para as actividades e pessoas e imaginando as bombas caindo, em Lisboa. Não é provável que as bombas caiam em Lisboa mas é altamente provável que a cidade das minhas seja arrasada. E isto causou-me uma náusea, uma "dor de mundo", uma repulsa pela guerra, pela destruição, um ódio aos futuristas e ao seu nojento manifesto e uma certa simpatia pela leve denúncia de Heidegger à estetização da auto-destruição da humanidade.

"may your weapons rust in peace"

25.10.07

On Hitler's Highway

de Lech Kowalski
81´ França/Polónia 2002

"On Hitler's Highway" é um "road-movie" filmado ao longo da estrada construída pelos nazis nos anos trinta para facilitar a invasão da Europa de Leste. Um olhar sobre o passado e o presente da Polónia e sobre as relações entre o Oriente e o Ocidente. Ao longo da estrada, Kowalski filma pessoas que tentam sobreviver como podem: um velho vende cogumelos, algumas crianças lavam os pára-brisas dos carros, prostitutas búlgaras fazem uma pausa para fumar um cigarro, um homem que vende gnomos de jardim recorda com saudade os tempos do comunismo. Prémio Especial do Júri no Festival Internacional de Cinema Documental de Amesterdão em 2003, "On Hitler's Highway" é o segundo tomo da trilogia europeia do realizador, "The Fabulous Art of Surviving", começada em 2000 com "The Boot Factory" e concluída com "East of Paradise" (2005).

Hitler's Highway era dos filmes que eu mais queria ver no festival inteiro. Para castigo abateu-se sobre mim a maior indisposição e náusea de sempre. Ainda assim pude ver o filme até ao fim (embora me tenha sentado no ultimo lugar da fila, pronto a sair a qualquer altura).
Um bom documento da "Autoestrada", o filme parece ter inspirações no Direct Cinema ou na Nouvelle Vague francesa no que toca a tomada de vistas e técnica de captação de imagens. Na montagem as coisas são diferentes. A montagem é bastante actual, recorrendo a uma linguagem que conhecemos bem da televisão. Planos não muito curtos não muito longos, com ritmo moderado, etc. Não precisava de chocar pela montagem com o conteúdo que apresentava: campos de concentração, ciganos reclamando por um país para a sua nação, como a nação judaica teve, prostitutas que revelam os segredos da profissão, guias em bases militares de balística abandonadas (da URSS), etc.
O filme quase consegue o objectivo de nos levar à origem da estrada, aos anos 40 da Alemanha e Polónia, embora eu ache que lhe faltou libertar-se da actualidade e quotidiano das prostitutas para ir mais ao encontro de quem possa saber da origem da estrada de Hitler. O autor tinha um certo fascínio pelas raparigas, nota-se...

A casa do Barqueiro

de Jorge Murteira
63´ Portugal 2007

Paulino é o último barqueiro da Amieira do Tejo. Entre as duas margens do rio é ele quem assegura a ligação. Mas raros são os passageiros e a seu posto de trabalho será brevemente extinto pelo poder. Enquanto isso não acontece, Paulino faz da barraca sobre o rio a sua casa improvisada. Vive ao ar livre e só recolhe quando a chuva, o frio ou o vento apertam. Pede e resmunga uma nova casa em condições. Mas quem o ouve? No Inverno e no Outono, aguarda sozinho os clientes perto da fogueira sobre o vale do rio, atento à passagem dos comboios que raramente trazem fregueses. Na Primavera e no Verão, fica à mesa de sulipas, solitário, mas sempre disponível para partilhar um copo ou um petisco com um turista ocasional.



Hilariante! Não vamos para casa mais ricos de conhecimento ou deslumbrados com os enquadramentos (vi um dedo em frente à objectiva e tudo). Mas o trabalho de um ano e muita paciência deu um documentário original e divertido, graças ao rabugento barqueiro.
Engraçado como sem voz off, sem mostrar coisinhas, sem um guião sequer se consegue fazer um filme cativante para um público generalizado.

Nocturno

de João Nisa
27´ Portugal 2007

Descrição fragmentária do espaço abandonado da antiga Feira Popular de Lisboa, durante o período que decorreu entre o seu encerramento e a definitiva demolição das suas instalações. Um conjunto de longos planos fixos, atravessados por pequenos movimentos, apresenta alguns dos elementos existentes no local (fachadas encerradas ou semidestruídas, divertimentos parcialmente desmontados), reconstituindo através da sua sucessão um percurso no interior do recinto. Um trabalho que pretende forçar a concentração da percepção e explorar a relação entre a experiência temporal e o modo de apreensão visual e sonoro de um lugar específico.



O filme passou a sua mensagem por exaustão. Mais de 20 minutos de filme com pouco mais de uma dúzia de planos e todos fixos. Referi que os enquadramentos eram sempre de casas abandonadas na Feira Popular de Lisboa? Ficámos a perceber que um espaço onde houve movimento é agora um nada, um Urban Void dos que falava a Trienal de Arquitectura de Lisboa este ano.
Para os que queiram queixar-se "isso não é um filme" defendo desde já que não é uma projecção de slides. Há som, há imagem em movimento, só não há movimento na imagem em movimento. Tirando um gato que se atreveu a passar em frente da câmara e que deixou perceber que o filme tinha uma boa qualidade de imagem, como se pode ver na foto acima.

right now

  • Read: "The Other Side Of The Sky", Arthur C. Clarke
  • Watch: "Pulp Fiction", Q. Tarantino
  • Play: N/A
  • Listen: "greateSt HIT", Dream Theater